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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Desafio Intermodal e Dia Mundial Sem Carro 2012


Na próxima terça-feira (18/09/2012), realizaremos o segundo Desafio Intermodal de Maceió. A novidade desse ano foi a inclusão de mais algumas modalidades de transporte como: patins, skate, cadeira de rodas e a integração ônibus + trem.

Estamos com um pouco de dificuldade para conseguir voluntários para o skate e a integração ônibus + trem. Se tudo correr bem, no próximo ano, estamos pensando em experimentar a integração bicicleta + trem e/ou bicicleta + barco (através da lagoa Mundaú).

Assim como foi feito no ano passado, o evento consiste em percorrer um trajeto pré-definido, na hora do rush, utilizando diversos modais diferentes, para ser feita uma avaliação comparativa entre o tempo gasto por cada um, levando também em consideração a eficiência energética, a poluição emitida e os custos financeiros.

A concentração será a partir das 6h30 e a largada às 7h15, em frente à sede do Ibama (na Gruta de Lourdes). A chegada será na Praça dos Martírios (no Centro), totalizando 5,4 km.

Para a realização do evento, precisamos de voluntários. Se você tiver interesse em participar, escreva para bicicletadademaceio@gmail.com informando nome completo, telefone e o modal que você pretende utilizar. Informe todos aqueles que você tem disponibilidade, pois alguns estão sendo muito procurados e outros não. Portanto, precisamos de uma segunda ou terceira opção de cada participante.

Você pode conhecer um pouco mais sobre o Desafio Intermodal de outras cidades buscando no Google.
 
Participe!

Contamos com sua colaboração!


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Para a semana que antecede o Dia Mundial Sem Carro, comemorado em 22 de setembro, montamos uma programação não tão extensa quanto gostaríamos, mas com a intenção de não deixar a data passar em branco em nossa cidade.

Para quem nunca ouviu falar no Dia Mundial Sem Carro, trata-se de uma iniciativa que surgiu na cidade de La Rochelle, na França, em 1998, e espalhou-se por outras cidades europeias e de todo o mundo. A cada ano, mais cidades aderem ao Dia Mundial Sem Carro.

O objetivo da data é incentivar os motoristas a deixarem o carro em casa por pelo menos um dia no ano, com o intuito de provocar a reflexão sobre a dependência que nós (e nossas cidades) temos do automóvel. Com isso, deve-se buscar outras alternativas, como o transporte coletivo, a bicicleta ou o próprio caminhar, para então observar como nossa cidade seria mais agradável se mais pessoas aderissem à essa iniciativa também em outros dias do ano.

Caso você não consiga deixar o carro em casa num único dia do ano, reflita sobre a sua dependência do automóvel. Essa foi uma escolha sua ou de pessoas que estão enriquecendo bastante à custa da degradação de nossas cidades?


"se esses idiotas fossem de ônibus, eu já poderia estar em casa"


Para lembrar a data, nós, da Bicicletada de Maceió, pretendemos realizar uma Bicicletada na noite do dia 21/09, dando um rolé pela cidade, panfletando e lembrando aos motoristas sobre o Dia Mundial Sem Carro. A concentração será no viaduto Aprígio Vilela (no Farol), a partir das 18 h e a saída às 19 h.

No domingo (23/09), realizaremos uma oficina para ensinar a andar de bicicleta aquelas pessoas que ainda não sabem. A oficina acontecerá no espaço fechado aos automóveis, na Av. Sílvio Viana, na Ponta Verde. Estaremos por lá a partir das 13 h.

Veja um resumo da edição de 2011 e 2010 do Dia Mundial Sem Carro.

Participe!

Tente se libertar do carro por pelo menos um dia no ano!
 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Jan Gehl: tamanho e beleza não são tudo


Um dos grandes urbanistas da atualidade, Jan Gehl, diz que seus colegas devem parar de se deslumbrar com suas torres imensas e projetar cidades para melhorar a vida da população
 
por Gabriele Jimenez

Nas últimas cinco décadas, o dinamarquês Jan Gehl, 75 anos, tem sido uma voz dissonante entre seus colegas estrelados, grande parte deles adepta dos edifícios espetaculares e monumentais — daqueles projetados para ser vistos de longe, de dentro do carro. Gehl diz defender "a volta à escala humana", que valoriza, por exemplo, detalhes nas fachadas, para ser apreciados por quem anda a pé — ou, mais alinhado com o politicamente correto, de bicicleta. Pesquisador da Royal Danish Academy of Fine Arts, em Copenhague, e autor do livro Cidades para Pessoas, ele liderou a transformação de sua cidade natal e de Melbourne, na Austrália. Para Gehl, o fascínio pelos prédios deixou as pessoas em segundo plano. Ele vem sendo consultado por governantes do mundo todo, como o prefeito Michael Bloomberg, que lhe concedeu, em 2009, um prêmio por suas contribuições a Nova York.

Por que o senhor é contra os edifícios monumentais?
Muitos de meus colegas fazem uma enorme confusão em relação ao conceito de escala. Eles criam projetos pensando em altura e buscando construir prédios que mais pareçam monumentos, de maneira que suas obras de concreto possam ser apreciadas a distância por quem passa por elas a 70 quilômetros por hora dentro de um carro. É o ponto de vista dos motoristas que tem determinado os contornos da maioria das cidades modernas. A escala humana, que eu defendo e aplico, é a que valoriza espaços menores, praças e fachadas com detalhes que as pessoas podem observar quando andam a pé. Essa é a perspectiva que ainda predomina nas áreas mais antigas dos centros urbanos ou mesmo em cidades inteiras que atravessaram os séculos preservando a escala humana em seu conjunto, como Veneza. Qualquer arquiteto moderno que pretenda tornar um lugar agradável à espécie humana deve compreender isso. Temos de nos desprender da ideia de que tudo gira em torno dos automóveis.

Ser contra carros não é uma visão romântica demais?
Não se trata de não gostar de carros. o que eu defendo é a necessidade de pensar duas vezes antes de construir avenidas e viadutos, que são um estímulo para que as pessoas usem mais e mais carros. Por outro lado, se erguermos praças e ciclovias boas e seguras, estaremos incentivando as pessoas a andar de bicicleta ou mesmo a pé. Sou um defensor da ideia de que mais ruas sejam vetadas aos carros e que se cobre uma taxa de quem dirige em áreas de tráfego mais intenso. Desde 2003, os motoristas pagam para circular pelo centro londrino e, sozinha, essa medida foi capaz de fazer o trânsito cair 20%. Cabe a nós, planejadores urbanos, dar às pessoas o estímulo correto. O mais fantástico em meu ofício é que as intervenções urbanas têm o poder de criar novos hábitos e comportamentos.

A arquitetura é capaz de moldar comportamentos?
Sem dúvida. Veja o caso de Nova York. Há três anos, a decisão de fechar a Times Square, centro nervoso de cruzamentos de grandes avenidas, causou desconfiança. Apareceu até gente dizendo que sem aquele trânsito tão familiar a cidade perderia sua identidade. Os lojistas também desaprovaram. Achavam que o comércio ia despencar, já que o movimento na área cairia. Mas as previsões mais pessimistas não se confirmaram. Hoje as pessoas passam mais tempo na região e se demoram justamente olhando as vitrines e comprando. Manhattan de fato melhorou com essa intervenção. Foi um caso que acompanhei de perto, como consultor do projeto, e fez reforçar em mim a convicção de que as resistências sempre esmorecem quando os críticos percebem que sua cidade está mais acolhedora e agradável.

Mas o senhor acha que faz sentido dificultar a vida dos motoristas em cidades onde o transporte público é insuficiente?
Faz, desde que se invista paralelamente na melhora dos sistemas de ônibus, dos metrôs e das ciclovias. Uma questão econômica conspira a favor. Por mais de meio século, tivemos gasolina barata — um poderoso incentivo para que os carros proliferassem e as cidades fossem planejadas para acolhê-los. Mas, daqui para a frente, com o escasseamento do petróleo e a alta no preço do combustível, seremos forçados a mudar essa mentalidade e apostar para valer em transporte público e boas ciclovias. Pode-se dizer que a bicicleta mudou radicalmente a paisagem de cidades como Copenhague.

Como isso aconteceu?
Construímos uma extensa malha de pistas, oferecendo às pessoas segurança e conforto para pedalar. Os motoristas foram se habituando a essa estreita convivência com os ciclistas e hoje os respeitam exemplarmente. É um sistema tão bom que cada vez mais gente usa a bicicleta como meio de transporte em Copenhague. Os últimos números disponíveis mostram que 37% dos habitantes vão ao trabalho pedalando. Até 2015, será metade da população. Nova York está enveredando por caminho semelhante. A meta do prefeito Bloomberg é construir 5 000 quilômetros de ciclovias — esforço fundamental para tornar sua metrópole a mais verde do mundo. Ambas podem servir de modelo para outros grandes centros, como Rio de Janeiro e São Paulo. Essas e outras capitais do mundo em desenvolvimento, como Lagos, Jacarta e Xangai, cresceram rápido demais e de forma desordenada, acumulando gargalos de infraestrutura que impõem desafios gigantescos. Todas precisam urgentemente de bons planejadores.

E onde os maus planejadores têm errado mais?
Por muitas décadas, eles vêm encampando ideologias que põem a beleza e o impacto visual à frente das verdadeiras necessidades humanas. Acabam resumindo a história a "Se algo é bonito, o resto se resolve". Mas não é assim que as coisas ocorrem. Construiu-se sobre essa premissa um grande equívoco que subverte a ordem natural das coisas. No passado distante, os urbanistas se debruçavam, primeiro, sobre a demanda das pessoas, depois refletiam sobre os espaços públicos e, por fim, imaginavam os edifícios nesse cenário. Hoje, a maioria de meus colegas pensa antes de tudo nos edifícios, depois nos espaços em que eles vão brotar e, só no fim, nas pessoas que circularão por ali.

Quais são as cidades que o senhor classifica como mais agradáveis para viver?
Coloco na lista, de novo, Veneza e Copenhague, além de Melbourne, na Austrália, e alguns distritos e bairros de certas cidades, como Greenwich Village, em Nova York. Gosto também de praças que, para mim, são o suprassumo desse modelo de espaço que acolhe bem as pessoas, como a Piazza del Campo, em Siena. Todos são, em alguma medida, lugares preservados de males urbanos como trânsito caótico e altas taxas de criminalidade. Também oferecem áreas onde se pode caminhar, sentar, observar, falar, ouvir, se divertir e se exercitar. Suas construções mantêm ainda uma boa escala e design de primeira, que levam quem as ocupa a se sentir confortável e protegido. Repare como o design dos edifícios é apenas um, e não o mais importante, dos components que, somados, compõem bons habitats para a espécie humana.

Mas os prédios esculturais e os arquitetos-celebridade que o senhor critica também podem mudar, e para muito melhor, o destino de uma cidade, como aconteceu em Valência, com Santiago Calatrava, e em Bilbao, com Frank Gehry.
Gosto de algumas obras de Calatrava, mas não de tudo. De modo geral, não sou fã desses profissionais alçados à condição de gênios da espécie — os "starchitects". Eles acham que podem "andar sobre a água" só porque produzem obras que, segundo sua própria visão, são cruciais para a humanidade, já que transformam os lugares em que estão. Mas essa não é a ideia de relevância em que acredito. Definitivamente, não gosto da monumentalidade da arquitetura modernista.

Isso quer dizer que o senhor não gosta, por exemplo, da Brasília de Oscar Niemeyer?
O que mais me incomoda na arquitetura modernista é o fato de que é uma arquitetura pensada de cima para baixo e não o contrário, como deveria ser. O exemplo de Brasília é emblemático — tanto que costumo me referir à "síndrome de Brasília" quando vejo locais muito grandiosos e sem nenhuma conexão com as necessidades de seus habitantes. Brasília até impression vista de cima, da janela do avião, mas lá embaixo, no nível do olho humano, ela não cumpre nenhum dos critérios que fazem de uma cidade um lugar bom para viver. Alguns dos espaços em Brasília estão entre os piores que já vi na vida. A cidade é monumental demais, desagradável para caminhar. Nos anos 60, quando esse tipo de traçado se popularizou, ninguém sabia nada sobre a interação das pessoas com o espaço que elas habitam. O que se sabia era como planejar uma cidade tecnocrática. O viés modernista, que prioriza o prédio e ignora o que acontece à sua volta, não produziu cidades boas para viver. Como princípio, eu não gosto.

O senhor, que não aprecia carros, também é contra os arranha-céus?
Não, mas acho que eles devem ser erguidos de forma criteriosa. Costumo dizer que planejar grandes torres é a solução mais fácil e preguiçosa para lidar com altas densidades demográficas. O mais difícil é espalhar edifícios baixos nesses grandes centros e mesmo assim torná-los lugares viáveis do ponto de vista econômico, como acontece em Paris e Barcelona. Isso, sim, é tarefa para os bons arquitetos. Precisamos conhecer bem cada lugar antes de decider infestá-lo de arranha-céus. Em países onde venta muito, como Inglaterra, Dinamarca e Holanda, prédios altos demais são contraindicados porque funcionam como barreiras. Ao se chocarem com as grandes estruturas de concreto, os ventos se dissipam e a velocidade com que chegam ao nível do solo pode multiplicar-se por quatro. Evidentemente os arranha-céus são úteis ao acolher muitas pessoas ao mesmo tempo em cidades onde há escassez de terreno. Mas, mesmo nesses casos, é possível erguer prédios altos sem minar o conforto das pessoas. O melhor exemplo que eu conheço é o de Vancouver, no Canadá. Ali, os edifícios mais baixos ficam nas extremidades dos quarteirões enquanto as torres ocupam a parte central. desse modo, o horizonte fica mais limpo. É o contrário do que ocorre em Dubai, por exemplo, apesar de seu conjunto de prédios baseados na arquitetura verde.

As cidades mais verdes são sempre as melhores para viver?
Esse é um dogma com o qual não concordo. O fato de uma cidade ter uma preocupação maior com o meio ambiente não é, absolutamente, garantia de que ela esteja voltada para as necessidades de seus habitantes, que transcendem muito a questão ecológica. Dubai, como já disse, retrata bem isso. Os edifícios de lá foram quase todos erguidos para economizar energia, mas a cidade como um todo não é nada agradável. No fundo, não é nada verde. Faltam áreas onde as pessoas possam caminhar, se esbarrar e se falar, produzindo aquela efervescência típica dos locais bons para viver. Há, em Dubai, áreas onde nem sequer existem calçadas, o que força as pessoas a usar o carro. Não basta, portanto, adotar uma cartilha de regras ecologicamente corretas e achar que isso fará um lugar mais agradável. É preciso ir muito além disso ao pensar os centros urbanos modernos. Eles devem ser como uma boa festa.

Como assim?
Se você fica em uma festa por mais tempo do que planejava, é porque se divertiu. Toda cidade deveria ser como aquela festa que dá certo, em que as pessoas se sentem tão bem e tão à vontade que acabam ficando. Viajo muito e sei que em vários centros urbanos as pessoas têm a sensação de que a vida piora a cada dia. Mas há os bons exemplos de cidades onde os arquitetos não se deslumbraram demais com as formas e olharam para o que interessa: os habitantes e suas necessidades. São esses os casos que devem inspirar governantes e planejadores urbanos.


Fonte: Revista Veja - 29/08/2012

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Governar é inaugurar obras?

 

por Raquel Rolnik*

Outro dia, viajando de carro de Brasília até São Paulo, fui observando as propagandas eleitorais das cidades por onde passei. Me chamou a atenção o fato de que a maioria dos outdoors e cartazes, assim como os spots de rádio e TV, referiam-se a obras inauguradas pelo candidato. Isso tem tudo a ver com a lógica de que prefeito bom é aquele que inaugura obras, de preferência bem visíveis. Lembrei até de um prefeito de uma grande cidade do Centro Oeste que colocava uma plaquinha em cada uma das obras, numerando-as. Uma praça era 387, um ponto de ônibus era 421, e assim por diante. Infelizmente, essa lógica deixa de lado um dos maiores desafios de qualquer cidade que é a gestão e a manutenção de seus espaços e equipamentos.

O que mais existe por aí é obra que é inaugurada e depois abandonada porque o município não tem política permanente de gestão. A lógica predominante, inclusive da própria estrutura de financiamento do desenvolvimento urbano no Brasil, é a dos programas que oferecem recursos para executar as obras, mas o investimento permanente necessário à qualificação das cidades está longe de ser equacionado. Como a lógica é a da visibilidade da obra e do momento sublime de sua inauguração, o tema da gestão fica relegado… mesmo porque até as próximas eleições, outra obra será inaugurada! Por trás desta relação “obra-eleição” está também a lógica da crescente importância da contribuição financeira das empreiteiras para campanhas eleitorais. Obras novas geram novos recursos de campanha num modelo de financiamento eleitoral, prevalente hoje no Brasil, em que os candidatos dependem mais e mais dessas contribuições privadas para poder se eleger em pleitos cada vez mais competitivos e midiáticos.

A questão da gestão e manutenção cotidiana dos espaços e equipamentos de uma cidade é importantíssima. É como na nossa própria casa: se paramos de investir, um dia a torneira quebra, no outro, o ralo entope, e assim, rapidamente, a casa se degrada. Manutenção não é só fazer faxina, é, também, sempre renovar. De novo, conhecemos isso da experiência de nossas casas: reformar é absolutamente necessário para manter a casa sempre em dia com as necessidades de quem nela mora. Mas como a lógica eleitoral é a da fitinha da inauguração da obra, esse assunto não aparece no debate. O que importa é mostrar quem cortou a fita e inaugurou a obra, e quem estava no palanque, participando daquele evento.

Além do mais, diante dos milhares de problemas que uma cidade enfrenta, nem sempre executar uma obra é necessário ou prioritário. Muitas vezes obras desnecessárias são realizadas apenas porque “aparecem”, ou seja, mostram que o prefeito está “fazendo o serviço”. Essa lógica primária cria “o prefeito que trouxe o hospital”, “o prefeito da escola”… Quando vamos superar essa lógica e enfrentar os desafios da gestão urbana no Brasil?

* Raquel é urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada.


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A mobilidade e as bicicletas de Amsterdam, ao vivo, 24h por dia

Por Willian Cruz

Para se ter uma leve ideia de como é a vida numa cidade que prioriza outras formas de transporte que não o deslocamento individual em automóvel, vale a pena dar uma conferida nessa webcam (clique na imagem abaixo):

 Imagem da webcam da TERENA em Koningsplein, Amsterdam (Holanda). Clique para ver ao vivo.

Essa câmera transmite ao vivo, 24 horas por dia, o que se passa na Koningsplein, uma praça em Amsterdam (veja no mapa). Você vai notar que são poucos os automóveis, boa parte deles sendo usados para entregas de mercadorias e não para transportar pessoas. Há muitas bicicletas, pedestres e, se você esperar um pouco, poderá até ver passar o bonde (tram) que aparece nessa foto.

Sim, há bondes circulando em várias cidades da Europa. Eles compartilham espaço nas ruas com carros, pessoas, bicicletas e ônibus, como deve ser. O bonde, algo que nos parece arcaico devido à cultura automobilística que se instaurou por aqui, auxilia bastante na mobilidade urbana por ser um transporte de massa, não poluente, com acesso facilitado e horários definidos. Como os carros não atrapalham seu fluxo, ele consegue cumprir razoavelmente bem seus horários.

Saiba mais sobre o tram neste post esclarecedor de Daniel Duclos

Nesse ponto de Amsterdam, as bicicletas circulam junto aos automóveis, em uma ciclofaixa (de transporte e permanente) pintada na lateral da via. Há sempre muitas bicicletas estacionadas na praça, de pessoas que foram a algum lugar por perto. Passam bicicletas por ali o tempo todo, veja nas imagens.

“Ah, mas aqui é diferente…”

Acha que nada disso funcionaria no Brasil? Impossível fazer o brasileiro ter esse nível de civilidade, convivência e educação? Então leia o texto nós não somos dinamarqueses, do Denis Russo, e pense duas vezes.

Fonte: Vá de Bike

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

[EUA] O sistema de transporte de Corvallis abandonou a tarifa de ônibus

 

É só entrar e sentar

Nancy Raskauskas, para Gazzette-Times

Quando Katrina DiFonzo pegou o ônibus na parte do Centro de Corvallis (Oregon, EUA, 50 mil habitantes) onde os carros são proibidos,  ela não precisou parar para colocar as moedas na caixa coletora da tarifa: simplesmente subiu no ônibus e se sentou. Agora, todo mundo que vier a utilizar o Sistema de Transporte de Corvallis (CTS na sigla em inglês), ou o Beaver Bus (ônibus para estudantes), poderá fazer o mesmo.

O CTS passou a operar com tarifa zero no dia 1º de fevereiro, custeada por uma Taxa Transporte aprovada pela Câmara Municipal, que cobrará $2,75 dólares por família mensalmente. A Taxa Transporte é uma das três Taxas para Iniciativas Sustentáveis que, somadas, chegam a $4,05 dólares. As outras duas cobrem o custeio das calçadas e árvores.

A taxa substituiu a parte do orçamento municipal (impostos sobre propriedade) antes destinada para o transporte. Aquele dinheiro agora está disponível para uso em outras áreas, como a biblioteca, os parques e os departamentos de polícia e bombeiros. Além do mais, poupou o fundo de transporte de possíveis cortes (o orçamento municipal está com um déficit de $3 milhões de dólares).

O CTS conta com doze linhas que cobrem diariamente a cidade entre as sete da manhã e oito da noite. O Beaver Bus tem três linhas que operam mais tarde nos dias em que a universidade está aberta, na terça, quinta e sábado, até 2h45 da madrugada. Estudantes e não estudantes podem utilizá-lo.

Linda Hartzell elogiou o novo sistema de transporte sem tarifa enquanto andava num dos ônibus. “Gostei, vou pegar mais ônibus agora”. No entanto, outros sistemas que se ligam ao CTS ainda cobram passagem.

Para Katrina DiFonzo, estudante de arte, muitas pessoas ainda não sabem da novidade. “Deveriam pôr uma placa aqui”, sugeriu, apontando para a estação de transferência. A motorista de ônibus Anna Hook concorda. Viu usuários com o dinheiro separado para pagar a passagem arregalarem os olhos ao ver a placa indicando gratuidade. “É só hoje?”, alguns questionaram. “Eu disse, não, não é só hoje!”

O secretário de Transportes, Tim Bates, justificou a demora em divulgar as mudanças no CTS como decorrência do longo processo para a aprovação das Taxas para Iniciativas Sustentáveis. E também por conta de uma recomendação da Comissão Orçamentária para que as taxas fossem suspensas. “A pior coisa seria divulgar e depois retroceder no último segundo. É uma lei municipal e poderia ter sido desfeita”, concluiu.

Superado este empecilho, a prefeitura divulgou a novidade em outdoors. A frase “Hoje é de graça” piscava nas placas eletrônicas acima dos para-brisas dos ônibus. “Naturalmente esperamos que haja um grande aumento no número de viagens”, disse Bates, e a prefeitura irá monitorar o impacto da tarifa zero no uso dos ônibus.

Tradução por Daniel Guimarães

domingo, 5 de agosto de 2012

Brasileiro propõe incentivo à reciclagem com ideia inovadora

Galileu conversou com jovem paulista que quer usar a reciclagem como crédito para o transporte público. Entenda um pouco mais sobre essa troca que pode mudar a cara da cidade em que você mora

por João Mello

Para Willian, a ausência de dinheiro no processo é sinal dos novos tempos.

Uma ideia simples para um problema complexo. Um não, dois. Transporte e lixo, dois dos principais dramas da cidade grande não têm muita coisa em comum quando olhadas sob a ótica tradicional. Mas cá entre nós: o que a ótica tradicional conseguiu de bom até agora? O jeito é pensar diferente. E se a reciclagem tivesse uma recompensa real e instantânea?

Trocar lixo reciclável por créditos de transporte público. É assim, com uma proposta tão simples que cabe em menos de uma linha, que o designer Willian Sertório pretende subverter a nossa relação com o lixo que produzimos. O nome temporário Meu Lixo, Meu Transporte, foi baseado na música “Meus Filhos, Meu Tesouro”, de Jorge Ben Jor e, por enquanto, trata-se apenas de um projeto. Ele inscreveu a ideia no Creative Sand Box, plataforma de incentivo à inovação do Google que vai dar 35 mil reais para a realização de um projeto inédito criado por brasileiros. Além de patrocinar, a empresar vai emprestar um time de funcionários para ajudar na concretização da proposta. Mesmo que não seja escolhido, Willian está feliz só pela repercussão gerada pelo projeto: “Só queria passar essa idéia adiante, não importa quem a realize”.
 
 
Esse cara quer ver você reciclando suas ideias sobre reciclagem.

Willian é formado em cinema e teve a ideia durante os tempos de grana curta na faculdade. Na conversa com a Galileu, ele falou da importância dos catadores de lixo, da ideia de armazenar a energia produzida aos montes nas academias de ginástica e da ineficácia da política convencional. “Deveriam lançar uma plataforma livre para as eleições. Cada político concorreria de maneira independente, de forma que o melhor político ganhe, não o que tem mais dinheiro”, afirmou.

Como surgiu sua ideia?

Willian Sertório: Foi na faculdade. No primeiro ano, estava desempregado e vivia duro. Era bolsista. Um dia resolvi ir ao Bom Prato que ficava do lado do campus. Sabia que estava tirando a vez de alguém que realmente precisava, mas achei que a experiência seria válida. Na hora de pagar, ou você dava R$ 1,00 ou trocava 10 latinhas por um almoço. Achei o máximo e pensei que isso poderia se aplicar de alguma forma ao transporte público. O ponto é: aquela refeição não custou R$ 1,00, muito menos 10 latinhas. Houve um subsídio do governo para que aquele alimento chegasse para aquelas pessoas naquele preço acessível e com aquela qualidade. Houve um incentivo.

Você pode descrever sua proposta?

Willian Sertório: O "Meu Lixo, Meu Transporte" usa duas falhas em prol do bem comum. Uma é a preguiça da maioria das pessoas em reciclar. E outra é o abusivo preço do transporte público, que não é tão público assim. A idéia é criar bancos de coleta de material reciclável que sejam trocados por crédito para transporte público. É importante deixar claro que a idéia não tem a intenção de resolver o problema de transporte nas grandes cidades, é apenas um estímulo para a reciclagem.

Esse projeto parece fazer mais sentido para cidades grandes. Você mora em São Paulo?

Willian Sertório: Moro em Mogi das Cruzes. Mas como estudei 4 anos em São Paulo, indo e voltando de trem, também acredito que o projeto faça mais sentido para cidades grandes. No entanto, acho que de início seja adequado aplicá-lo em cidades pequenas, para “sentir” melhor.

Nos comentários do Creative Sandbox dá pra ver que todo mundo gostou da ideia, tem elogiado bastante. Você esperava essa acolhida? Acha que as pessoas ansiavam por um projeto como esse?
Willian Sertório: Não esperava. Fiquei muito surpreso com o acolhimento das pessoas, de verdade. E me considero realizado: só queria passar essa idéia adiante, não importa quem a realize, quando ou onde. Gostaria de ver o hábito de reciclar finalmente inserido no cotidiano das pessoas.

Qual você acha que pode ser o alcance do seu projeto? Qual dimensão você imagina pra ele?

Willian Sertório: Acredito que, de início, seja interessante implementá-lo em uma cidade menor, para servir de laboratório e ir atualizando ele conforme a necessidade das pessoas. Depois partiríamos para uma cidade de maior porte. Por ser designer, sei que não existe fórmula pré-fabricada para sucesso, e que cada público se comporta de um jeito. Portanto, é necessária muita pesquisa e análise antes de implementar em um novo lugar.

Você pensa em desdobramentos para o Meu Lixo, Meu Transporte? Quais elementos poderiam ser agregados ao projeto inicial?

Willian Sertório: No Sandbox, comentaram sobre os catadores, que eles poderiam ficar "sem emprego". Não acredito que isso aconteceria, mas um desdobramento do projeto seria incluí-los no processo, a fim de melhorar a qualidade de vida deles. Talvez incluí-los como agentes, quiçá professores. Temos muito que aprender com eles.

Não dá para ignorar o aspecto político da sua proposta.Você acha que a política convencional tem algum futuro, ou melhor, pode mudar o futuro?

Willian Sertório: Acho que partidarismo não tem futuro algum. Deveriam lançar uma plataforma livre para as eleições. Cada político concorreria de maneira independente, de forma que o melhor político ganhe, não o que tem mais dinheiro ou tempo de exposição. Voto não deveria ser obrigatório, não se obriga alguém a exercer um direito, não é? Gosto também de iniciativas feitas das pessoas para as pessoas, dá pra chamar atenção, mas dificilmente resolvem problemas, no máximo mudam hábitos. Problemas só podem ser resolvidos com investimento pesado do governo: saúde, educação, saneamento, transporte. E como diria João Whitaker, isso não é gasto, é investimento. Você investe na sua população. Gasto com educação não existe, é absurdo dizer isso.

Você acha que os políticos nos representam?

Willian Sertório: Vejo a democracia mais como um ritual do que como um instrumento. Se fosse um instrumento, nossos protestos seriam ouvidos e teríamos (mais) ferramentas para nos organizar e ajudar a construir a cidade. Da forma como é hoje, é tudo muito confuso e difícil para entendermos os processos e nos envolvermos. Além de reforma agrária, educacional e tantas outras, precisamos de uma reforma política, que valorize a participação popular além do voto. A participação política deve ser constante.

Qual seria a infra-estrutura necessária para o projeto?

Willian Sertório: De início, a idéia é basicamente aproveitar infra-estruturas existentes o máximo possível, apenas equipando-as com quiosques para inserção de créditos. Ecopontos, cooperativas de catadores: locais que já recebem material reciclável e sabem separá-lo de acordo. A maior complexidade seria a questão do subsídio público, uma tabela de valores (como no Bom Prato) que seja justa e acessível, estimulando a população a separar seu material reciclável.

No seu projeto, o dinheiro é substituído por créditos de reciclagem. Tirar o dinheiro foi uma necessidade ou algo deliberado?

Willian Sertório: Acho que é um movimento da economia. No mundo todo o capitalismo está regredindo e as relações de troca estão voltando à tona, como era na Idade Média. Creio que tirar o dinheiro de cena seja só um sintoma do nosso tempo. Além disso, temos o imenso problema do lixo, que embora todo mundo seja consciente, poucos são sensibilizados pela causa. Se a pessoa não vê vantagem em curto prazo em uma atitude, é difícil ela se adaptar a um hábito. Um livro bacana sobre isso é o “Previsivelmente Irracional”, do Dan Ariely.

Qual você acha que seria a reação do governo e das companhias de ônibus ao se depararem com a ausência de dinheiro em um processo tradicionalmente tão lucrativo quanto o transporte público?

Willian Sertório: Eu sou da turma que estranha o fato de termos escola pública, saúde pública, lazer público (todos carentes) e não termos efetivamente transporte público. É uma questão de vontade política fazer com que sua população circule gratuitamente pela cidade. Em Hasselt, Bélgica, isso já é realidade desde 1997. Tudo bem que a Bélgica é um país menor e de primeiro mundo, mas como define o sociólogo João Alexandre Peschanski: cobrar tarifas pelo uso de transporte público é uma injustiça econômica. Se o serviço beneficia a todos, por que só uma parcela paga por ele? Transporte público gratuito não é utopia.

Se o projeto não ganhar o prêmio no Creative Sandbox, você pretende levar ele adianta de outras maneiras?
Willian Sertório: Sim, pretendo continuar desenvolvendo-o em outras plataformas. Independente do resultado, acho que foi um jeito bacana de passar essa ideia pro maior número possível de pessoas, fazê-las pensar "por que não?".

Você inscreveu seu projeto no Google Creative Sandbox. Pensou em inscrevê-lo em outras plataformas, como o KickStarter ou o Catarse (plataformas de crowndunding)?
Willian Sertório: Agora a idéia é apenas um embrião. Acho que o Kickstarter e o Catarse não são para projetos como o meu, que é uma idéia de sistema, mais abstrata. O que mais me interessou no Creative Sandbox foi a possibilidade de poder contar com coaching da equipe do Google, caso o projeto vença. Esse conhecimento, essa troca, que me estimulou a inscrever o projeto. A assessoria desses profissionais vai enriquecê-lo e norteá-lo.

Quanto você acha que a implementação do projeto custaria no total?

Willian Sertório: Difícil mensurar agora, nessa etapa do projeto onde o capital humano é o mais necessário. Em um segundo momento, acho que a questão de valores ficaria mais clara.

Você tem outros projetos ou ideias mais ou menos nesse mesmo sentido?

Willian Sertório: Estava imaginando se fosse possível armazenar a energia que as pessoas gastam nas academias. Antigamente, com a escravidão, os escravos tinham que "se exercitar" para mover máquinas e afins, o que era extremamente terrível e brutal. Hoje as pessoas se exercitam voluntariamente e em série nas academias, e vejo essa energia sendo desperdiçada. Já pensou equipamentos de ginástica que armazenassem a energia que você gastou neles? Vou começar a pesquisar sobre.

Clique aqui para votar no Meu Lixo, Meu Transporte no Google Creative Sandbox


 
 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Condomínio e utopia


Por Golbery Lessa

O condomínio residencial é uma das mais inconsistentes utopias já inventadas. Uma parte da elite econômica levanta muralhas contra o resto da cidade e obriga-se a construir casas sem muros, num estilo arquitetônico marcado pela possibilidade de o transeunte enxergar várias dimensões do cotidiano dos moradores. A mensagem utópica é clara: aqui se vive uma interação perfeita entre individualidade e comunidade, entre indivíduo e sociedade civil, nesse solo prevalecem os princípios republicanos da transparência, da fraternidade e da liberdade, aqui se chega mesmo a roçar as franjas do socialismo. O nomes desses condomínios são sínteses lingüísticas dessa utopia.

Visitei uma casa na qual um pequeno gramado com menos de dez metros separava a calçada e uma parede externa com setenta por cento de sua área feita de vidro. Como o dono da casa deve se sentir diante de tal interação compulsória com o espaço coletivo, mesmo sendo um lócus de sua classe social? Por que ele se presta ao evidente incômodo de ter sua vida potencialmente devassada diuturnamente pelo olhar de quem passa?

Esse indivíduo tem necessidade de ver e viver sua utopia liberal, aquilo que justifica e empresta sentido à sua sede de lucro, mas a realidade do capitalismo contemporâneo levanta cidades caóticas e refratárias a qualquer aparência de utopia. A elite mercantil inviabilizadora de políticas urbanas racionais é ela mesma vítima do caos da urbe; vende até a corda na qual se enforcará, destrói a própria utopia justificadora de sua visão de mundo. Inventa, então, um pouco consciente e um pouco inconscientemente, uma farsa de utopia: o condomínio residencial.

O mesmo comerciante maceioense destruidor de fachadas com valor arquitetônico paga caro para o seu condomínio ter uma paisagem sem qualquer referência ao comércio. O industrial poluidor dos rios pode ser visto regando as plantas. O latifundiário monocultor não constrói cercas ao redor do seu jardim, contradizendo a lenda rousseauniana sobre o nascimento do direito de propriedade. Ocorre uma transformação geral, o novo homem surge no interior daquele perímetro cercado por guaritas, vigilantes e cercas elétricas.

Muitos acreditam morar ali por mero status, simples ostentação de riqueza, ou para enturmar-se de modo seguro com sua classe social, garantindo lazer, “bons casamentos” para os filhos, bem-estar arquitetônico, distanciamento dos pobres e segurança. Mas para isso não seria necessário a árdua construção de uma aparência de utopia. A utopia igualitária e exibicionista dos condomínios não é funcional para nada disso. Ela é, essencialmente, uma busca desesperada por coerência moral e sentido para a vida efetivada de maneira farsesca por uma classe sem mais possibilidades objetivas de ter coerência e sentido na sua prática e na sua subjetividade.